sábado, 9 de junho de 2012

Sugestão de filmes sobre a África



Estão aqui listados alguns filmes disponíveis em circuito comercial, que podem enriquecer nossa visão sobre o continente africano. Nos resumos que acompanham os títulos, estão destacados os aspectos que justificam a inclusão desta lista no blog do continente africano.

 

ENTRE DOIS AMORES, (Out of Africa), Dir.Sydney Pollack, EUA, 1985) Este filme é baseado no romance A fazenda africana, da escritora dinamarquesa Isak Dinesen, pseudônimo da baronesa Karen Blixen. A história gira em torno dos encontros e desencontros de uma dinamarquesa que resolve se tornar proprietária de uma fazenda de café no Quênia. A trama principal trata do fim de um casamento por conveniência e do encontro do grande amor de sua vida na figura de um caçador inglês. Este pertence à geração do entre-guerra, que se auto exila na África a fim de evitar uma sociedade na qual não se sente a vontade. Paralelamente a esta trama, o filme permite resgatar vários aspectos da historia e sociedade colonial. A vida dos colonos permite vislumbrar como se preocupavam em reproduzir na África a sociedade inglesa: as resistências, as festas, a etiqueta,o clube, a culinária, etc. os colonizados não estão caricaturados, o que possibilita inferir o tratamento que recebiam, bem como na sua dignidade e despeito da dominação.o envolvimento e relacionamento dos europeus como os nativos permitem inferir o duro cotidiano da sociedade colonial.

UM GRITO DE LIBERDADE, (Cry freedom, Inglaterra, 1987, Dir. Richard Attenborough). O filme trata do envolvimento de um jornalista branco e liberal, Donald Woods, com a ativista negro Stephen Biko na África do Sul durante a vigência do apartheid. Ao longo do filme o editor vai se transformando de um bem acomodado jornalista em um critica do sistema, à medida que se aproxima de Biko e percebe o significado do apartheid para os segregados. Sua descrença no regime corre paralela à sua aproximação dos negros e do nascimento da amizade com o líder negro, ao mesmo tempo em que é fortalecida por ambas. O jornalista bem comportado passa a ver a África do Sul, na medida em que estreita os laços com a comunidade negra, o cotidiano sul-africano na perspectiva dos negros. Este envolvimento é acompanhado pela mudança de seu status perante o regime, que passa vê-lo como ameaça. Assim, ele se torna alvo de repressão e ação arbitrária da polícia. Seu envolvimento torna-se tamanho que ele é obrigado deixar clandestinamente a África do Sul, para evitar a prisão.


COZINHA DE TOTÓ, (Toto’s kitchen, Inglaterra, 1987). O filme tem como pretexto o drama do menino africano (Totó) que se torna ajudante de cozinha na casa do delegado da polícia no Quênia, na década de 1950, após seu pai ter sido assassinado por ativistas Mau-Mau. O assassinato do pastor protestante, se pai, teve como motivo sua negativa em usar o púlpito para elogiar o movimento de contestação colonial. A situação colonial, a crise pela qual passa a administração inglesa, o movimento dos revoltos, suas estratégias e recursos, o preconceito dos colonos em relação aos nativos, etc, é enfocado através do acompanhamento da vida do menino. No caos que a colonização instaura Totó, como seu pai, acaba sendo assassinado por africanos. O pai foi vitima dos revoltos quicuios e Totó de policiais massais. Neste sentido, o filme permite pensar que na pluralidade de vitimas da luta pela independência. Outros aspectos interessantes é a sugestão de que a distinção entre o africano e o não-africano tornam-se fluídas após quase um século de ocupação européia.


E A LUZ SE FEZ, (Et la lumière fut, Dir. Otar Iosseliani, França, 1989). A aldeia, os espaços ocupados pro aqueles que viveram as situações tratadas, mais do que um cenário, talvez seja o verdadeiro protagonista deste filme. Esta aldeia é por analogia uma alusão ao próprio continente africano. No decorrer da narrativa ela passa por uma imensa transformação, de uma aldeia tradicional, com residências, pessoas e vegetação abundantes em quase nada pontuado de vestígio do que antes tinha sido residências e uma floresta. Varias tramas se sobrepõem a da aldeia que vai sendo consumida pelo desmatamento, a dos deuses que vão sendo transformados em artesanato, e dos aldeões que migram para a cidade. Assim, temos o choque e sobreposição de dois universos: o da aldeia, da magia, dos deuses, da ausência do tempo, do rural, da comunidade, da tradição e o da cidade, do urbano, do impessoal, do moderno, das máquinas, do progresso. Neste embate, último prevalece seja por destruir o espaço da aldeia ou por forçar seus moradores a abandoná-la. Talvez o episódio mais interessante seja a do marido que sai da aldeia em busca de sua mulher desaparecida, percorrendo várias regiões da África. Em cada um ele é obrigado a portar uma indumentária como sinal de civilização, seja um boné, um paletó, ou um documento. Nesta sua peregrinação ele encontra vários grupos/organizações que ostentam símbolos de civilidade identidades e linguagens distintas, mas todos pretende ser e representar um pouco da África.



NAS MONTANHAS DOS GORILAS, (Gorillas in the Mist, Dir. Michael Apted, EUA, 1988).o filme conta a história da obstinada inglesa Dian Fossey que se transfere para uma fechada floresta em Ruanda, na África com o objetivo de pesquisar a vida dos gorilas. Vencida as dificuldade iniciais ela obtém sucesso no contato com os primatas, ao ousar uma abordagem inovadora resultante de sua formação como enfermeira. A partir deste momento ela torna-se uma incansável defensora da preservação dos gorilas, o que a leva ao confronto direto com os caçadores , como acontece com muitos zoológicos preservacionistas na África. O conflito de interesses entre eles revela diferentes visões acerca dos gorilas. Para a pesquisadora estes seres vivos que devem ter suas vidas preservadas, enquanto que para os caçadores são mercadorias e fonte de renda. O crescente atrito e as dificuldades que Fossey representa para os caçadores culminam com seu assassinato.


O valor deste filme para a compreensão histórica e social da África se situa em três temas abordados. O primeiro é a atuação dos caçadores que atuam com contrabandistas da riqueza natural da África. Esta atividade predatória, mesmo sendo exercida por africanos, é prejudicial ao continente na medida em destrói seu patrimônio natural. O segundo é o próprio conflito de interesse e posturas dos africanos em relação ao tema. A autoridade que tentam reprimir o contrabando também é constituída de africanos. Portanto, o embate retratado não se dá somente entre uma preservacionista européia? E os nativos predadores. Já o terceiro é a insatisfação de guerrilheiros com a presença da polícia na região, o que transforma a questão dos gorilas e/ou o conflito da pesquisadora com os guerrilheiros em uma problemática mais ampla. Por fim, o filme permite também pensar qual o lugar da África que transparece no filme e/ou que deve ocupar na questão da preservação ambiental. Os gorilas que nos perdoem, mas se, por um lado, eles são absolutamente defensáveis, por outro, é impossível não pensar num novo “imperialismo” ecológico. Neste caso, o continente incapaz e de incapazes necessitaria sempre da tutela de um novo imperialismo, seja humanitário ou ecológico, para não voltar a barbárie destruindo seus habitantes e sua natureza. Ou será que os africanos podem agir como sujeitos nesta questão, desenvolvendo programas e políticas próprias de preservação, com base nas prioridades, valores e valores locais.





OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS. (EUA, 1980)comédia de muito sucesso que conta as dificuldades de um bosquímano na sua odisséia para devolver uma garrafa de coca-cola aos deuses. A garrafa, jogada de avião, foi saudada pelos nativos como um presente dos deuses. Passado algum tempo esta se torna motivo de discórdia e briga entre os membros da comunidade. Então o Ulisses bosquímano deixa o Callari com o objetivo de encerrar os problemas da aldeia, devolvendo a garrafa. Nesta sua empreitada, ele atravessa o interior da África do Sul, se envolvendo em diferentes situações com um pesquisador desastrado, uma professora, guias turísticos, guerrilheiros, e autoridades policiais. Ao término do filme ele consegue lançar a garrafa aos deuses e retorna como herói ao seu povo.


Está comédia além de ser muito divertida, permite recuperar uma gama de informações para pensar o continente. A caracterização dos bosquímanos, quem são, onde e como vivem, suas estratégias de sobrevivência no deserto, sua técnica de caça, é a primeira delas. A segunda diz respeito à diversidade social e espacial da África do Sul, de vai dos bosquímanos habitantes do deserto até a grande metrópole, passando pela aldeia e pela pequena cidade.


MANDELA E DE KLERK. (1997) Este filme narra os acontecimentos e articulações que levaram ao fim do apartheid na África do Sul. Estas são constituídas de três movimentos paralelos. De um lado temos De Klerk consolidando internamente ao governo e ao partido a estratégia de negociação junto ao CNA para superar o impasse pelo qual passa o país. De outro, temos Mandela negociando junto as lideranças do CNA a abertura de conversações com o governo, em função dos sinais enviados por estes. E, por último, temos as negociações, nem sempre tranqüilas, entre dois líderes para o fim do regime de segregação. As tensões, impasses, dificuldades e riscos enfrentados pelos dois protagonistas são mostrados de tal forma, que mesmo sabendo o desfecho da história, não deixamos de sentir apreensão.


Como recurso didático, este filma tem dois méritos. Primeiro, permite caracterizar o regime apartheid e a luta do CNA. Segundo, reforça a ideia da história como processo dependente das ações e opções dos sujeitos, e não como resultantes de forças e conceitos abstratoos.



O PODER DE UM JOVEM. (The Powerof one. Dir. Jonh G. Avildsem, EUA, 1992) "O filme se passa na África do Sul e conta a história de P.K. um garoto inglês nascido em solo africano em 1930. Cresceu com sua mãe, pois seu pai morreu um tempo antes dele nascer? A mãe lhe ensinou música e inglês, enquanto sua babá lhe ensinou zulu e a cultura local. Aos sete anos é mandado para um internato porque sua mãe estava doente, só que este internato era de africânderes. Aí é onde se observa a base de conflito do filme, ingleses, africânderes (?africanos brancos? descendentes dos holandeses) e povo nativo. Por ser um garoto inglês, desprezado e sem amigos, sofre bastante, principalmente quando sua mãe morre e sua babá volta para a terra de origem, deixando-o sozinho. A partir de então, criado com a ajuda de um alemão, amigo do seu avô, que vai preso no período da II Guerra, P.K. passou a ir diariamente a prisão e além de ajudar a unir as tribos africanas, se torna um exímio lutador de boxe. E num campeonato, conhece Maria Marais, moça pela qual se apaixona, mas havia um problema, ela era filha de uma das principais famílias tradicionais do novo governo conservador africânder que havia se instalado. Governo esse que tomou como lei uma medida instaurada pelos ingleses, o apartheid. Está gerado, assim, este belo drama, do mesmo diretor de Rocky, Um Lutador."


Tradutores: famulan, geena, apalma e postmaster.



Comentário dos filmes de LOPES, Ana Mônica e ARNAUT, Luiz no livro História da África uma introdução.Belo Horizonte, Crisálida,2005.

Postado por Safira da África










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